Do guia de turismo ao álbum de casamento - a cidade como produto. Verônica Vaz apresenta um fotolivro como peça central de sua exposição. Ele reúne imagens de uma ação que a artista realizou durante uma viagem. Performance? Verônica decide casar. Alugar um vestido, escolher um sapato, definir uma paleta de cores, técnicas de auto-maquiagem, abrir o guia na página 166 (indicações ao turista – Casamentos em Las Vegas). A artista não desenha um conjunto de ações para serem realizadas por uma suposta noiva. Ao contrário, se torna noiva para cumprir com o protocolo oficial de toda noiva que se casa em Las Vegas. Disfarce? O que diferencia Verônica das mais de 110 mil noivas que casam-se anualmente em suas rápidas passagens pela cidade? Verônica é parte desta paisagem. Sua ação borra ligeiramente alguns limites entre realidade e representação, incluindo aqui toda a sorte de papéis que por uma ou outra razão decidimos assumir socialmente. Uma pequena capela branca ou seria um shopping center matrimonial? Uma pequena capela branca ou seria uma galeria de arte? Uma pequena capela branca ou seria um fundo infinito? A capela é ponto de partida para seu roteiro em Las Vagas, mas também parece ser o mote que utiliza para criar o desenho de sua exposição. Em Las Vegas, A Little White Chapel é uma galeria comercial onde você pode ser a noiva que desejar, dependendo de quanto dinheiro disponha para isso. Na exposição, um título. Um letreiro em neon que ilumina momentaneamente o espaço asséptico e atemporal de uma galeria de arte. Coincidência? Em The View from the Road, Appleyard, Lynch e Myer descrevem a experiência de dirigir como “uma seqüência encenada aos olhos de uma platéia cativa, um tanto temerosa, mas parcialmente desatenta, cuja visão é filtrada e dirigida para diante”. Haveria porventura alguma equivalência entre dirigir pela Las Vegas Strip e descolar-se cidade pós cidade seguindo a programação artística global que define os contornos do dito sistema de arte contemporânea?

 

VOLTA AO MUNDO A PÉ EM DUAS HORAS

 

Las Vegas é um dos destinos turísticos mais procurados, uma cidade conhecida por oferecer praticamente “tudo”. Aspirina gratuita - peça-nos qualquer coisa. Todavia os turistas, na maioria, vão para ficar por pouco tempo, sob o desafio de transformar suas rápidas passagens em memoráveis maratonas de consumo. Cassinos temáticos, hotéis luxuosos, fast food, réplicas de monumentos importantes, grifes famosas, letreiros luminosos e uma cidade aclamada como a capital nupcial do mundo. Como é possível se orientar através de mapas em uma cidade onde edifícios são letreiros e letreiros são edifícios? Andar nessa cidade é mover-se pela megatextura da paisagem comercial: Da imponência das capelas com sinos e querubins à banalização do casamento drive-thru; dos selfies em pontos turísticos aos inusitados stories no Instagram que transmitem 24h de uma noiva em uma cidade desconhecida, sem noivo e sem casamento. Fake? O casamento de Verônica é legítimo e a prova disso é a Estátua da Liberdade ou a Torre Eiffel que servem de cenário para a noiva em Las Vegas. De acordo com o guia turístico, na página 25 “Cidade sem igual no mundo, ela pode pegar os marcos mais reconhecidos de outras cidades e recriá-los com grandeza e brilho maior”. Em um tempo onde a vida passa pelas telas e é normatizada por opiniões pessoais, a verdade já não tem importância. No livro Aprendendo com Las Vegas, Venturi, Scott Brown e Izenour comentam que “para a arquitetura do ócio são essenciais a leveza, a qualidade de ser um oásis em um contexto talvez hostil, o simbolismo realçado e a capacidade de envolver o visitante em um novo papel. Durante três dias ele pode imaginar que é um centurião no Caesars Palace”. Frente aos nossos smartphones essa estadia é ilimitada. Há algo mais que possamos aprender com uma cidade cintilante em meio a um deserto? Se tirarmos os letreiros, não existe o lugar.

 

Daniel Escobar

 

 

A Little White Chapel

Instalação

2019

 © Portfólio 2019 

 
VERÔNICA
VAZ